Ele quer ser o próximo Zuckerberg

Uma piada antiga diz que, quando há relâmpagos no céu, os argentinos olham para cima e sorriem, porque Deus está tirando fotos deles com flash. A brincadeira, que faz parte do relicário brasileiro de piadas sobre a ambição dos vizinhos hermanos, pode ter um quê de verdade. Pelo menos em se tratando de um argentino específico, ele está olhando para o alto e sorrindo. Domingo Montanaro, 31 anos, quer chegar lá e já tem motivos para acreditar que isso será possível.

Montanaro acaba de lançar, no prestigiado SXSW — evento de música, cinema e tecnologia no Texas (EUA) onde despontaram Foursquare e Twitter — a rede social Gabstr, e já anunciou, sem modéstia, que pretende que sua criação seja um futuro Twitter ou Whatsapp, mirando o sucesso de Mark Zuckerberg e o Facebook. Em 15 dias, o número de usuários já chegou a 1.500. “É pouco, considerando que não tivemos ainda nenhuma visibilidade e que o aspecto geolocalização divide os usuários”, diz o fundador. “Mas acreditamos no crescimento orgânico, à medida em que mais pessoas forem aderindo”.acidente_sxsw_gabstr

Com o mote “a adrenalina da proximidade”, o Gabstr é um aplicativo para iOS e Android (versão somente em inglês, por enquanto) que pretende integrar as pessoas que estão geograficamente perto em torno de interesses em comum. Agrupadas em hubs, elas podem criar grupos e trocar ideias e dicas sobre as mais variadas preferências — as feiras de rua, um novo bar ou a programação cultural que só vai rolar naquele fim de semana, mas sempre na região (hub) em que o usuário está. “A ideia é estimular encontros reais, de pessoas que têm interesses em comum e que estão perto uma da outra e nem sabem”, diz Montanaro.

AquiAustinPor enquanto, uma das limitações é que a pessoa não consegue enxergar o que acontece em outro hub do outro lado da cidade, por exemplo. Assim, deixa de ficar sabendo de eventos, ideias ou papos que poderiam lhe interessar, ficando restrita ao que acontece em uma área muito pequena à sua volta.

Ócio criativo – A ideia surgiu na beira de uma piscina de um hotel em Porto Rico, no Caribe. Montanaro, expert em inteligência cibernética e segurança da informação, tinha ido dar uma palestra em um evento e perdeu o avião de volta. Em seu dia ocioso à espera do próximo voo, reparou que, na piscina, todo mundo estava grudado em seus celulares, falando e mandando fotos para pessoas que estavam a centenas de quilômetros de distância. “Por que não conectar as pessoas que estão juntas aqui?”, pensou.

Vinte dias depois, ele já tinha pedido demissão da empresa norteamericana em que trabalhava e passou os dois meses seguintes enfurnado em casa, pesquisando e dando forma à ideia. Chamou nove amigos, que compareceram como investidores, e em maio de 2013 se mudou para Maceió por três meses. Foi lá que ele encontrou os cinco programadores, liderados pelo alagoano Julio Auto, 28 anos, chefe de tecnologia do Gabstr, que durante oito meses trabalharam no desenvolvimento do aplicativo. Hoje a equipe tem mais três pessoas.

Bate-papo e geolocalização – Olhado por diferentes ângulos, o Gabstr mescla um pouco de vários aplicativos e traz outras funcionalidades. Do Twitter e do Whatsapp, oferece o chat em tempo real (gab é uma palavra antiga para chat), com a diferença que você não precisa “seguir” ninguém nem ter o número de celular da pessoa para interagir, apenas estar geograficamente perto.

De aplicativos baseados em geolocalização, como o Foursquare (recomendações e críticas de restaurantes, pratos e endereços bacanas na região em que o usuário está) e o Waze (em que as pessoas compartilham informações em tempo real sobre o trânsito na cidade), invocou o espírito colaborativo dos usuários, que trocam ideias sobre coisas interessantes acontecendo na área.

O Gabstr vai também se apropriar da reputação que as pessoas já têm em redes sociais consagradas, incluindo o Facebook, para referendar a “qualidade” e a relevância de seus membros. “Desenvolvemos um algoritmo exclusivo para determinar a relevância dos usuários e a tração de determinado assunto para posicioná-los mais acima na lista de grupos de discussão ativos em determinado hub”, explica Montanaro.

Eles não querem ser brasileiros – Os investidores são brasileiros, os oito funcionários são brasileiros, mas a última coisa que o Gabstr quer é ser identificado como uma startup brasileira. Montanaro decidiu que quer ser uma empresa do renomado Vale do Silício, meca da tecnologia, e é para lá que toda a trupe deve se mudar em breve. “Investidores olham com mais carinho para empresas de tecnologia instaladas lá. O Brasil ainda não tem tradição nessa área e não queremos perder oportunidades de encontrar investidores”, justifica.

Captar dinheiro de fundos de venture capital é o foco para os próximos seis meses. A estimativa é que um aporte de 1,5 milhão de dólares dê gás suficiente para tornar o aplicativo mais robusto, com novos recursos como incluir fotos e vídeos e ampliar o alcance do radar do usuário, de modo que ele possa visualizar também o que está acontecendo em um hub do outro lado da cidade, e não apenas naquele em que está geograficamente.

Até agora, o investimento passou de US$ 300 mil, embora o valor exato seja guardado a sete chaves. O fato de ser argentino – embora tenha trocado o país pelo Brasil aos dois anos de idade – deu uma ajudinha extra a Montanaro: um acordo entre EUA e Argentina estabelece que um investimento mínimo de US$ 300 mil naquele país garante um visto de residência por dois anos. Se Montanaro fosse brasileiro, o valor exigido pularia para US$ 1 milhão.

Do ponto de vista comercial, o Gabstr imagina que poderá atrair anunciantes com base no modelo de audiência das TVs e rádios. Lojas, prestadores de serviço e outros negócios poderiam anunciar em suas áreas de abrangência, dentro dos hubs. Quanto mais pessoas em determinado grupo, discutindo determinado assunto, mais caro seria anunciar naquela região.

Por enquanto, um time de voluntários e entusiastas (os beta testers) estão provendo feedback gratuito aos desenvolvedores do aplicativo, que deve lançar uma versão aprimorada daqui a três meses. Se o Gabstr vai se tornar o próximo queridinho do mundo digital, e Montanaro o próximo milionário do Vale do Silício, só o tempo dirá.

[por Mariela Castro]

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